sexta-feira, 29 de abril de 2011

IX {romance} [trechos]

Sou tão apaixonado por ti, quisera todos os dias fazer poesias para nosso enlace. A porta está entreaberta e nesta noite vejo-te brilhante com tal intensidade que o sol não se compara a ti. Tentam nos apartar, em vão se esforçam em oporem-se aquilo que nasceu para permanecer um só. Mesmo que o desenfreio dos meus apetites busquem à outra o fazem só até cansarem, mais tarde, fadados e confusos acorrem a tua calçada.

Minha dama, é tão sem sabor a vida humana quando longe um do outro estamos, é tudo tão sem sentido. Sempre que reinas a paz alenta nossos passos. As vozes estranhas me afetam a escuta e fica minha cabeça a imaginar o que acontece quando à minha vista não se dispõem aos meus desejos. Ficam criando a desconfiança, o medo, a traição, a inveja e tudo aquilo que só causa desordem, desordem atrás de desordem, só porque numa ou noutra hora eu me separo o mínimo de ti.

O cheiro das flores são como tu, ou tu como o cheiro das flores, ninguém prende, estão de tal maneira entregues ao ar, que este lhe espalha a fragrância. Assim o mesmo que te espalha também te entrega por não te ter como posse. É isso que quero, ser contigo de tal maneira entregue que ninguém me tome de mim mesmo, para ser lançado de mim mesmo ao anelo do meu ser. Quero minha dama, minha senhora e rainha, me despir de tudo o que não me deixe ser una carne contigo, uno espírito contigo, pois que, una tu no meu corpo e uno eu no teu espírito.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

VIII {dezembro sem ti} [íntegra]

Como são ingratos esses dias sem ti, dezembro é tristeza e solidão quando não te espreitas à minha porta, quando aquelas insinuações de outras me alentam por segundos apenas ao sensível. De sensações e sensações meu corpo se cansa e esses dias se tornam um labor exaustivo e uma desenfreada queda em direção de si mesmo. No prazer e só nele, meus membros encontram um pouco de tranquilidade, que posso chamar de anestesia. Mas o definitivo que deseja o meu ser é tão diferente disso que em segundos se passa, que no esconderijo do íntimo sei o que procura de fato esta satisfação, esse gozo. Só maldade, somente deslealdade e desonestidade, sofro e vejo nesses dias, do tipo que prende tudo ao que se foi, até à promessas atrasadas, ou do tipo deslealdade que me tenta obrigar a corresponder à altura do ato que me fora empreendido.

Minha virgem, minha dama, vem ao meu encontro, que as serras se abaixem quando virem vossa beleza, que os ventos parem ao suspiro de tua boca, que a flores exalem o teu cheiro e pureza, te desejo minha bela, eu pior que fera te quero tão puramente que estremeço nos meus nervos o anelo que trago de ti.


É tão magnífico te encontrar, tão cheio de graça o sorriso de teus lábios, tão fascinante a luz dos teus olhos. Sempre que ao gosto do tato te aprecio meus dias são tão ricos e vigorosos, sempre tão leves e espontâneos. Fica para sempre, não deixes que meus pensamentos possam correr noutra direção que não tu minha senhora. Não, não quero jamais ter que esperar por outra que não a ti. Vem amada! Minha vida é vida quando nos encontramos, sabes disso como também eu o sei e quero que seja eterno. Na minha memória, vão e voltam o prazer de relembrar nossos abraços, ao passo que quando vão perdem o gozo, mas quando chegam trazem felicidade. Por isso desejo a imutabilidade para que as circunstâncias não favoreçam minha prisão fora de ti.


Os murmúrios da noite reclamam uma libertina senhora que lhes multiplica o efêmero, ao passo que minha rainha se dá a todos com eternidade. Como somos cegos, a treva e a nuvem encobriram nossas visões para o império libertador, preferindo com tal cegueira depender do prescindível.


Minha cama está a espera para que no sono eu também te encontre, não somente sonhando, mas no repouso da fadiga poder provar que o limite nos permite proximidade, mesmo que deste eu não posse me soltar, ele não me impede de se todo teu à medida que quando ele é mais forte eu sou capaz de vencê-lo, até que na hora derradeira ele mesmo seja mediador de nossos encontros. Sim minha dama, até o cansaço me deixa te ver agora sem o gosto do descanso só com o esforço do desprendimento, de si mesmo e até do que é justo.


Amada minha, não tardeis em me dar vossos beijos, não demoreis em me dar vossos abraços, nem me proveis na espera de ti, correi ao redor de minha tenda e deixa teus cabelos graciosos pularem comigo ao som do vento sobre as folhas. Minha querida voltemos aos dias de outrora quando andávamos sem medo no jardim, sem ladrões, sem prisões, sem dores. Voltemos às nossas núpcias, àquela entrega total dum ao outro. Voltemos minha amada, ou volte somente eu, pois eu sou o mutável desta história.

VI {ainda preso...} [trechos]

Fico eu me aprisionando a coisas que não são, e que mesmo sem ser me fazem sofrer por elas, por não ser e por me seduzir infantilmente apelando para o prazer que tenta atender a solicitação do sangue. Quero ir contigo minha mestra, ir lá no âmago desse esponsal, onde se revelam todos os desejos do amado e da amada. Sim, minha querida, já sei o que queres, porém, seja mais ainda clara para que eu escute com tal franqueza, que nada em mim seja descartado por conhecer a ti, senão totalmente, pelo menos agora em parte.

No arrebol um suspiro cantou forte aos meus ouvidos, a aurora fulgura tão forte que seu brilho vara a compreensão humana, nada pode confundí-la. Assim, minha rainha, espero-te ardente, para que vivamos a altura daquilo que somos, não como fuga, mas como sinal de que tudo o que reluz ou brilha e que hoje se tornou inimigo de nós dois.


Minhas entranhas sentem um tremor estranho, é a falível miséria querendo me tornar cativo. Não quero, não, não quero experimentar a condenação do réu, que sentenciado ficará a espera por anos de ti na condição da matéria, quero viver a lúcida certeza de que com os pés na terra posso te ter sem que eu me eleve superficialmente. Creio que minha vida te encontra todos os dias nos descampados, nos alpendres e caminhos estreitos sem que se sinta encontrar contigo, mas tu estás cá na minha prisão me libertando, numa prisão que se desfaz a cada segundo quando morro, a cada passo quando viajo na vossa inefável altura. Quão belo, minha menina, te ter mesmo em parte, mesmo aos poucos, mas vendo-te aproximar-te totalmente para nos termos em plenitude, tu a mim e eu a ti, sem regresso.


E esta prisão não me prende, porque penso em vós todos os dias, e meus pensamentos livres até de si mesmos me surpreendem em sonhos tão belos, em imagens tão puras de nós dois. Quem me tirará de ti? Quem ousará nos afastar a não seu eu mesmo, reclinado sobre as minhas reclamações quando quero me prender em vez de me soltar.

III {a noite...} [íntegra]

A lua nova fez-me a noite ficar mais longa. Eu encabulado por querer e não ser, por buscar e não achar, desenhei um castelo onde imperava aquela rainha que me faria por toda a vida conhecer a sua paz. Num delicado copo depositei o que eram esperanças, para encontrar no prato não só o deleite do meu apetite, mas a alegria de ficar à mesa, de comungar do que não é simplesmente carnal, humano e limitado, mas totalmente transcendente e vivente, imortal e incontável. Ela como que aos poucos foi se mostrando, enquanto eu ainda acordava meus sonhos por coisas imensas. Sim quão belo foi encontrá-la, assim sorrateiramente, à porta de minha tenda, vê-la estender sobre mim seus braços abertos, e eu querendo a imitar para sermos só um outra vez.

Nas sombras do passado apareciam grandes feras que intentavam contra nossa união, ela ria de mim como que caçoando, porque eu tolo como sempre me arrazoava com aquilo que já não existia a não ser na memória e no tempo sem regresso. Assim ficamos, e ela brincava comigo e me dizia insistentemente que olhasse para ela com paixão de agora, enquanto eu preso com insatisfação do ontem me acusava toda hora de não ser digno dela, de nunca poder conhecê-la.

E nós nos conhecemos, quem diria que não? Quem negaria que ela veio quando tudo se passou contrário ao que lhe traria? Ela veio e me ajudou a amar meu passado sem que me desfizesse dele, ela me encantou tão gravemente que fiquei doente crônico por suas graças. Ela me fez caminhar, não só pelas sombras, mas por tudo o que dava medo até no sol do meio dia. Quão agradável se mostrou me fazendo irromper para além das minhas mazelas, me levando para os campos de trigo maduros que se apoiam na força do vento para bailar sem receios. Me conduziu por estradas de chão, por caminhos tão sinuosos que me fazem ver outras belezas no caminho, que se vão para trás um passo a cada passo que dou para frente. Me fez aperceber que ater-se ao passado é parar durante o percurso para olhar o que se tem deixado sem continuar andando, ao passo que o horizonte me convida a novas razões para ir.

Eu não quero deixa-la jamais, mesmo que me cortem todos os membros, não quero perdê-la, pois sei o que me custou, e não só por isso, porque mesmo que nada custasse somente a queria sem porquês.

I - {primeiro encontro} [trechos]

Mas veio e veio de maneira tal que já não sou eu mesmo que me dirijo, ela me eleva a transcender para além do belo, para além do visto, para além das idéias, para além do próprio além.

Fui escolhido por ela e hoje eu também nela a escolho e quero-a mais dos que as coisas que me impeçam de tê-la sem ter, visto que nem posse posso assumir dela, para que não corra o risco de roubar-lhe a identidade para assumir o meu modelo dela mesma. Assim, ela seja e reine segundo os seus ditames, segundo as suas normas, importa que seja eu dela não de mim mesmo.

Aos poucos me fez compreender que respostas não são atos irrevogáveis, pelo contrário, a sua irrevogabilidade lhe impediria de ser o que ela é, assim assumo, todos os dias, frente a mim mesmo novas possibilidades mesmo quando a imposição do meu passado me tenta refrear a perspectiva do novo. De pouco em pouco atino dentro de mim que ela só é, e que ninguém a perturbará, e se assim pensar perturbou seus ídolos porque ela é intacta. Ela me conquistou, como território todo dela, não posso evitá-la e se assim eu tentar todos os dias ela me espreitará sem guerra. Eu que guerreei contra ela provo agora a sua paz e agora sem combater somos tão íntimos que se nos confundimos, mesmo quando eu me tento impor meus passos de outrora ela é a mesma...