domingo, 27 de novembro de 2011

XXXIV {pequenas gotas} [íntegra]

Algumas discussões me incomodam. Sempre tento ser persuasivo o bastante e ter o melhor argumento. Acontece que coisas infantis não precisam de palavras, por si perdem qualquer disputa. Mas quem vê a infantilidade quando ela aparece como brincadeira? Quem vê em ato engraçado a figura de um menino? Li isto de um sábio homem: "Quando eu era criança, pensava como criança, agia como criança, agora que sou adulto faço coisas de adulto.". A ignorância, tida em conta de minimizar o erro é sempre válida. O que não sabe estar errado não erra. Ou pelo menos erra sem os mesmos agravantes do conhecedor do erro. Se me vissem criancinha fazer algo digno de censura, sem demoras me levariam à disciplina, sem considerar a ingenuidade infantil, por não saber a grandeza do erro eu seria exortado a não cometer outra vez este ato. Ora, quando adulto, agora com minha consciência cheia de saber não me imputam erro quando faço as mesmas coisas que era criança. O que faz tal comportamento ser censurado quando em tenra idade se tornar aceitável quando o homem crescido? A consciência? A máscara da brincadeira? Se uma criança quando brinca comete um engano tal equívoco deve ser desconsiderado em sua educação? Se dissermos que não, motivados pela necessidade que tem tal criança de crescer sadiamente acabamos lançando culpa sobre os nossos atos adultos. Pois se quando pequeno, imaturo, sem discernimento suficiente, ainda ignorante posso ser censurado e ter em conta tais fatores a meu favor. Quando adulto, por ser grande, maduro, digno de discernimento, não mais ignorante sou réu dessas virtudes.

Esse tema é inesgotável, como tantos outros que me questionam o íntimo. Aqueles que trago sempre comigo, que vez ou outra me incomodam. Amores, paixões, sentimentos, sensações, pensamentos... São infindas essas outras. Agora é tudo tão diferente de tempos anteriores, minhas paixões mudaram, não a intensidade, mas a forma. Crescer eleva-me, me tira daquela condição rastejante em que outrora me eram mais pesados os vícios que as virtudes. Vejo virtudes onde antes imperavam paixões, vejo amores onde outras paixões me encantavam. Estou mudando. Não falo de grandes coisas, aquelas pedrinhas que me deixavam inquieto como se fossem enormes montanhas agora reconhecem seu tamanho. Aprendi a olhar diferente para mim mesmo, sem dar valor demasiado ao mutável.

Minha amada, o que queres? Diz-me. Está tão tarde, me sinto bem, vejo o teu belo rosto. Queria dizer-te que amo-te de forma intensa, incessante. Como se lançam as águas duma cascata abundante, com tanto fragor, como torrentes, assim meu amor se joga em teus braços. Vem, amada minha, façamos hoje ainda canções e poesias para exaltar nosso amor. Tão precioso tal instante que se pudesse o eternizaria nalgum retrato. Mas quem pode ver-nos, sem que nos ignore? Quem poderá compreender-nos sem que nos questione? Deixemos entre nós. Fiquemos a sós e amemo-nos. O brilho dos astros nos toca, nos percebe, que se encante com nossas núpcias. Aquela pequena estrela que constantemente crepita vê-nos, mande-mo-lhe beijos, acenemos nossa alegria. Olha, estrela, tu que és bela, tu nos tens se o quiserdes ou poderás voltar atrás e rejeitar-nos.

Esses dias são outros, essa noite é outra, esse sonho não é igual. Minha morada exulta sem nada receber, só porque pensa amando, se dá amando, exulta. Nem o cansaço dos meus olhos me fazem querer deixar em branco esse instante. Minha rainha, minha querida senhora, está tão unida a mim que sinto nos meus dedos o fulgor da sua alma. Já estava a sentir falta de tamanha delícia, um gosto tão aprazível que ninguém o suporta na totalidade, como que em pequenas gotas prova dele, esta gotícula que experimento é demais grandiosa para tão ínfima matéria. Que alma suportaria, sem morrer, conhecer-te totalmente amada minha. Agradeço-te esta hora avançada, este sono que me bate, repousarei contigo, desposar-te-ei esta noite toda e provarei no meu sono os teus beijos.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

XXXII {mercenário} [íntegra]

Sou um bobo, quase menino, daqueles que se alegram com pouquinha coisa, que se enganam com um pequeno presente, que sorriem com fisionomias deformadas de outrem. E se me alegro com pouco, com menos ainda me amarguro. Me mandam um beijo e sinto-me nas alturas, penso-me superior por tão ínfima coisa, o juntar de lábios que para mortais representam coisa tão forte. Sinto a ausência de abraços, afagos, palavras, atenção. Cobro e espero que alguns me dêem o que lhes dei. Sou mais que tolo, diria, um mercenário que espera receber o preço do que vende. Que entrave! De um lado combato, do outro sou atacado, tento me convencer que não preciso conformar-me por ser miserável, mas grande número de sofrentes é assim, me conformar seria cumprir uma espécie de lei geral.

De paixões em paixões acabo me lançando. Penso que todo poeta gosta sofrer para na página expor seus sentimentos. Na metade da minha vida não quero ser como os outros, acho imerecido tanto enlevo morrer na solidão. Risadas anaimantes dão prazer indelével, aninhar-se noutra alma é boníssimo até que seja desmontado esse ninho e se caia por terra o pássaro pequeno agora envolto em perigos. Quantos ninhos eu quis, quantos ainda quero, mesmo sabendo da sua indigência. Tu me vês! As questões se repetem, aparecem diante dos meus olhos os mesmos quadros, pintados com a mesma figura, montando o mesmo cenário, expondo o mesmo passado, anunciando o mesmo fim. Serei confuso? Acredito que não. As palavras que entôo são de amor, os corações que busco são os que desejo amar, ser lúdico me aplica sentença de rejeição.

Por querer muito, desejar muito, buscar tanto, na mesma intensidade em que quero, desejo e busco me decepciono. A expectativa posta em objetos insuficientes causa infortúnio e este último só provará a morte quando eu for todo da minha amada.

domingo, 20 de novembro de 2011

XXXI {decidi} [íntegra]

Tentei ser mais teu, amada minha, durante esses dias que se passaram. De não ser procurado, de não ser amado, de não ser requisitado me cansei. Acontece que deixar-se estar nos teus braços é fazer pouca conta disto, mas parece que procurar para ser procurado é uma maneira vil de ser cativo. Sim, me cativei, me prendi em amores que eu mesmo criei, amores que não correspondem aos meus apelos, quando os procuro por palavras indiretas, por gestos indiretos. Os sonhos que desvendava eram apenas meus, estava tão preso à frívola poeira de um vento forte que não via meu próprio crime. Rio de mim, sei que ris também. Sou um pobre coitado à mercê de qualquer movimento colorido à minha frente. Meus olhos preferem formas enquanto meu ser suspira verdade. Taxado de insano, por não me impor a vaidade dos outros, agora estou provando o que é ser um pouco deles, é aterrador. Não saberia, minha amada, definir com realidade o que é essa vazia experiência do nada. Andava, e ao meu redor procurava algo que possuísse um valor pelo qual pudesse trocar-te por isto, nada encontrei nem encontraria, tu és tão bela que és impagável, todo o ouro não te valeria, todo os bens por ti nada seriam. E ainda se tudo eu pudesse dar por ti, sem nada ficaria no encalce de te ter.

Esperei tanto. Nunca conversa amena deixei escapar coisas sem valia e me perturbei com isto. Depois vi o quanto me depreciam os comentários que eu mesmo me dou, aparento também algo ou alguém que não poderia ou deveria ser. Um desastre! Meus atos me acusam, minhas mãos estão sujas de intenções que não compreendem a verdade do meu íntimo. Mereço! Falam o que permito, exprimem de mim o que demonstro, muito embora não o seja na verdade, agi erroneamente e mereço ser compreendido à altura do meu proceder. O ato é produto da vontade, do desejo, do anelo. Se a boca expressa o coração, minhas atitudes indolentes gritam minhas imprudências. É triste saber-se insensato. Estou tão longe da sabedoria, e assim tão longe de ti, que me parece impossível aproximar-me de ti. Se tão impossibilidade é real, resta-me apelar a Deus que me dê de ti ainda quando nada é possível.

Esperarei ainda, mas minha espera é repleta de amor. Ainda, como que involuntariamente, vou ao encontro, procuro, me dou, por não saber ser outra coisa que não eu, agir de outra forma que não esquecer-me.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

XXX {palácios} [íntegra]

Minha amada, na cama sempre penso o que seriam os dias sem jamais ter te encontrado, ou como seriam, se em mim não houvesse esperança alguma de abraçar-te sem fim. Penso também no que acontece fora da minha morada, onde tocam os meus olhos, onde ouço canções, onde toco a matéria, onde exalo perfume, onde sinto o gosto das coisas. Penso sobre o que pensam, sobre como se comportam os que de alguma maneira encontram no fulgaz um refúgio. Me sinto estranho, as vezes estrangeiro, diante de tantas formas de ser que nada são, diante de tantas maneiras de agir que não agem bem, diante de tantas palavras que nada conseguem dizer a não ser coisas vãs, me sinto estranho por pensar de maneira diversa, por não comungar com certas ilusões mentirosas, e minha estranheza não advém por negá-las, mas por ser excluído tido por uma espécie de doença. Será eu o doente? Preciso ser um homem sem rosto? E pensar que acham-se mais cheios de estilo os que de forma indiscreta aparecem entre as pessoas, aqueles que vestem roupas ridículas imaginando estar aí sua mais alta expressão de fidelidade ao próprio caráter. Nós nos acrescentamos enquanto precisamos tirar, nós nos vestimos de roupas velhas e o que precisamos é nos despir da falsidade. Nos apresentamos como grandes enquanto a nossa alma reclama ser pequena, não por sonhar pequeno, mas por ser simples. Fazemos de nós meros enigmas, códigos criptografados simplesmente alfanuméricos. Deixamos o mistério e caímos no determinado. E nos achamos sábios, homens inteligentes, só porque entendemos ou decodificamos a matéria. Ó, minha dama, quem é este que te fala? Barro, argila, pó! Sou como os outros, amo para ser amado, procuro para ser procurado e nada faço senão for para buscar a mim. Mas todos são assim? Todos quando dão querem receber?

Minha dama, já me dei tanto, já sonhei tanto, imaginei casas de ouro, onde habitariam eu e aquela estrela, galguei palácios construídos com pedras de amor, feitos de telhados de paz, e chão de felicidade. Como um poeta que faz da caneta uma rosa, escrevi ramalhetes na cor vermelho vibrante. Tudo isso o fiz e sempre foi vão. Errei em me precipitar nos braços de uma outra esperando ser ela a verdadeira brilhante, quase lhe causo dor e amargura. Minha dama, sonho ainda, espero ainda, e tento, exprimindo em setas, lançar num olhar esse sonho e fazê-lo chegar ao céu.

domingo, 13 de novembro de 2011

XIX {meu flagelo} [íntegra]

Me esforcei tanto essa noite, procurei estar à altura do que os homens pensam ser belo. Isso é fácil conseguir, na verdade o que é de fora se muda com toque de qualquer tinta ou lápis. Sim, minha amada, vejo que não sou todo teu agora. Depois de ter acordado repenso o que fiz na noite anterior com medo de que minhas ações sejam tomadas em conta de erro. Minha consciência é reta, sei o que fiz e não penso ter errado, mas este é o grande perigo. Pensar que estou certo à minha maneira, segundo os meus ditames é um pouco narcisista. O jogo aqui fora é de corpos e caras, vejo rostos bem pintados, quase que mascarados, confundindo os olhos dos que vêm o que está na superfície. Corpos se balançam e eu também, até aqui tudo natural, mas quero mais, anseio por infinitude, esse balanço não me dará o que quero, esses olhares recusam o meu porque pensam ser eu um perigo, ou assemelham todos os outros a si próprios. No escuro todas as pessoas se tornam iguais, embora pensem diversamente, todos estão querendo a mesma coisa. Eu quero o que todos querem, mas não no que toca ser como a multidão, quero estar contigo minha dama. Todos querem isso, mas uma coisa é querer-te, outra é ter-te. Eu te quero, mas não sei ainda se te tenho. Sonho contigo todos os dias, mas também me lanço nos braços de outras pensando com elas ser parte da multidão. E o sou! E isso me maltrata, eu me firo, isso é o meu flagelo.

Que preço estou pagando para ganhar um pouco de atenção, para que meus olhos fitem outro olhar com um sorriso? Será que me veem como tu me vês? Não, não! Sou visto por fora e acho que está na hora de acabar com essa sensação funesta de ser comparado. Preciso ser teu, é o que consigo entender com tantas ciladas.

Eu sou assim, um homem perdido em seus romances, dividido em si mesmo, mas certo do que precisa para ter sua amada. Tido por aquilo que pensam de mim, achado entre esses que pensam-me como alguém douto nalguma coisa, sábio noutras, sei quem sou, perdido em mim mesmo querendo estar a sós contigo.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

XVIII {estrelas} [íntegra]

Cheguei ao regaço, é bom voltar, melhor que estar fora, todo o que retorna sente o que deixou. Novas coisas com aparência de velhas interrompem meu curso, ponho o meu olhar não querendo deslize, nem equívoco. Medito, sonho, rezo... Talvez a minha amada tenha ficado longe nesse tempo, talvez eu tenha corrido para me esconder de mim mesmo e dela num lugar escuro. Pequeninas estrelas arrastam meus olhos, tão belas, mesmo pequenas, tão fortes, tão frágeis, tão ricas de encantos. Não posso mentir, não para ti amada minha, tu me conheces o pensamento, sabes que meu ser inteiro deseja-te mesmo quando te rejeita. Sim, essa infame contradição causa amargura, te quero e me quero, quando amo-te vejo nisto grande felicidade, quando me amo e busco ser eu fim de mim mesmo toco a desgraça, essa que olhada na sua causa demonstra outra fome. Sim, mesmo quando me busco e assim sou infeliz, busquei-me por querer felicidade. Parece loucura!

Nesse quase deserto escuta-me, ouve-me. Essas estrelas me causam alegria, uma delas mais que as outras, me causa esperança essa frágil brilhante. Ela não cintila como as outras, não está tão distante, não se apaga com a luz da lua, nem vai embora com a luz do sol, parece que nele resplandece com mais força e pureza. Suspiro pensando nela, queria dar-te ela, confiar-te essa linda brilhante, mas não a conheço tanto, dela ainda ignoro o íntimo.

Estou dividido, reclamo ser eu mais simples, porém agradeço não ser medíocre, a dúvida não é só incerteza pode ser ela mesma quando há numerosas possibilidades dotadas de bem querer. Esta, agora, só se dá por circunstância. Estar aqui ou ali não me importa tanto, é dor se for sem ti, minha dama, e contigo felicidade, e com uma só estrela felicidade, e sem ela felicidade.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

XVII {sim ou não} [íntegra]

A expectativa toma conta de mim agora, e como um gladio vara meu corpo transpassando-o amargosamente, uma ânsia se apodera de minhas forças e fico parado no tempo sem nada fazer. Uma paralisia me tomou por inteiro, e não sei sair do lugar esperando que me venham notícias de terras distantes ou de lugares que não alcanço. Sempre foi assim, mas agora, jogado nos braços dessa amorosa dama, não me mato com tanta violência como outrora, pois antigamente minhas decisões estavam plenas de compensação. Sei que o que compenso se torna meu vilão e que para o vício se tonar necessidade só basta ser empurrado no precipício, sei também que minha rainha me concede tantas alegrias, que rejeitar minhas solicitações é atender ao apelo dela.

Poderia eu, com algumas simples palavras fazer cessar esse corrimento de sangue e reter embaixo da pele todo o seu fluxo até que inchasse e coagulasse. Mas o mesmo sangue que corre lava e põe para fora de mim impurezas das mais diversas. Não posso frear as seqüelas que eu mesmo me introduzi, o que posso é com maturidade assumir o preço deste instante que parece não passar.

Nunca imaginei que quisesse ouvir até um não, é a disposição que nesta hora encontro dentro de mim, não fazendo desmerecer a espera de uma resposta que possa seguir por toda a vida, mas a resolução clara, sem dubialidade. Sim ou não produzem em mim praticamente a mesma conseqüência visto que o fim de um e de outro me trará a paz, em ânsia o sim, mas preparado para o não, um e outro me deixarão conhecer minha dama mais um pouco, é um fruto maravilhoso que provo comer e se não tivesse agindo com coerência para degustá-lo poderia beber do fel sem sabor do infortúnio.

Por minha dama sou capaz de tudo, até de me aniquilar para tê-la, não quero que aconteça o que antes dela se reproduzia como uma peste, quero sim, que tudo o que aconteça dentro de mim seja como esponsal entre eu e ela, onde os nossos amores se realizem.

Flores, campos, tesouros, tudo isto tem um outro sentido quando nós unidos, até os amores menores encontram nela seu fundamento. E como me introduz, na minha morada, a tranqüilidade que preciso e como minha tenda fica mais iluminada quando eu e ela nos dispomos um para ou outro, eu por decisão, quando quero, ela por natureza e perenidade, sempre me buscando e deixando-se ser encontrada por mim.

Não poderia esmiuçar o que é o agora. Se sofro por esperar, também gozo por ver o que faz em mim tanto desprendimento, sinto meu peito arder em alegria, mesmo envolto a um canteiro de espinhos perfurantes. O que poderia explicar tal cenário? Eu quero respostas, e elas não vindo não me causam tanta morte como no tempo de minha imaturidade. Como estou feliz, por achar nesta situação um pouco de compreensão, um pouco de lucidez e beleza, estava perdido, agora vejo o que me pode dar a minha rainha quando estou decidido em não perdê-la.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

XXV {fantasias} [íntegra]

Quando eu mergulhava em águas transparentes via diversas formas que me apraziam, enquanto o sol queimava minha pele e a lua ainda no clarão encantava o mesmo céu. Casarões e casebres distinguiam uns dos outros na beleza e também na paz. Ora, acontece que faz muito tempo que eu e minha dama trocávamos afetos, só por culpa minha, parece que quando se pensa ter a encontrado as coisas se tornam mais corriqueiras e não se dá a apreciação devida ao que se vale. Mas o vento, o mar, a areia da praia, os barcos e as velas me fazem pensar nela e ainda mais a desejar, e à noite, cansado pelos esforços em vão, vou me deitar só com um pouco de felicidade.

Quantos vasos também me inquietam, não pelo que trazem, mas pelo que aparentam. Sei não ser dela totalmente, pois que mesmo sem trazer no meu corpo mancha em culpa alguma, fico premeditando minha defesa se por acaso me virem acusar. Morro antecipadamente por não saber esperar o tempo oportuno, por vaguear desenfreadamente pela minha imaginação criando inúmeros personagens e cenas de teatro, chego a acreditar-me pouco enlouquecido, tudo porque não sou ainda dela o quanto necessito. É um massacre interior, meus inimigos não são os vasos, nem poderiam, nem são o que pensam de mim ou o que poderiam falar, mas somente aquilo que dou estima demasiada e acrescento peso esmagador, tais coisas são minha maior perturbação. Minha cabeça pensa tão rápido em coisas que não são reais, que me perco nelas pensando serem verdadeiras ainda que não acontecidas. Crio discursos, conversas, correções, sem que nada seja real, agoniado por não saber lidar com novidades ainda que sejam muito boas, talvez por serem tão boas me custem tantas energias, e esforços, e morte.

Deixando que entrem no meu íntimo consigo agora com ajuda de mãos divinas olhar tal ficção com mais cuidado, vejo realmente que me falta ainda, aqui ou ali, pertencer a minha princesa. É uma estrada longa, que não quero evitar seguir só porque não sei lidar com minhas fantasias, com o que é irreal. Não o que não é visto simplesmente, mas o que é criado para confundir a razão e deixá-la enfraquecida.

Minha razão enfraquecida por viajar no fictício me deixa assim, totalmente sem paz. Acalmo o mar bravio das minhas preocupações, uma pequena porção de água não poderia gerar tantas tempestades, mas a força que lhe introduzo é tão intensa que parece ser um oceano em fúria. Me entristeço e alguns me vêem assim e logo me perguntam o que há de acontecido. Me calo, tento não dizer o que meus pensamentos intencionam, mas o que realmente acontece é o que irreal se dá. Temo partilhar de tais metáforas, são quase contos infantis essas minha viagens sentimentais da consciência, quase um mito que tira tantas forças de mim que me sinto esvaído e perdido como um náufrago me afogando em ondas que eu mesmo faço nascer e agora farei morrer.

terça-feira, 21 de junho de 2011

XXIV {o nada} [trechos]

O homem que se deixa pertencer a ela encontrará certamente durante a estrada certas indagações a respeito dele mesmo, inveja por parte de alguns, desdém por parte de outros, traição, rancor, até ira ou ódio possam sentir por quem queira ser totalmente da bela princesa. E se assim fosse o contrário questionável seria estar a nau no rumo certo, pois que, as intempéries fazem parte das rotas dos mares. É nesta hora que se sabe a quem de fato se conhece, ou a quem verdadeiramente se pertence: quando a lua não mais dá seu brilho, quando nos derredores tudo contrasta, quando no íntimo nada é estável. Talvez, quando todo este confuso se der, se consiga ver ela em seu total esplendor, porque o nada é a condição mais próxima dessa senhora. Quando se despedaçam os sonhos, quando morrem as expectativas, quando tremem as bases e há instabilidade e em todo este meio nada mais consiga prender a vida de alguém. Me sinto assim, meu tapete foi puxado, estou no chão e em nada posso me agarrar, nenhuma das mutáveis seguranças são mais meu porto, de certa forma, quase que de maneira obrigada, sou lançado a ver que tal condição é oportuna para se dar a ela.

Minha dama, cada hora aqui neste matadouro é um tormento. Quero te ter e fico dividido, em mim mesmo desencontrado, trouxe tantas coisas comigo para caminhar na tua direção que os meus passos se tornaram pesados e parece que é uma eternidade cada segundo que demoro para me achegar a ti. Do meu lado passos iguais aos meus não confiam em nada que lhes seja dito, outros traem seus corações e o amor que conheceram e isso também me deixa como mar bravio. Sons de toda a espécie insistem que desista de ti. Mas eu te desejo, sim minha dama, me perderia longe de ti, pois ninguém como tu conhece o que é perene. Eu não viveria sem ti. Essa dolorosa hora me deixa confuso, mas não conseguirá me separar das tuas mãos. Nossos dedos entrelaçados firmam nossa união, e me vejo assegurado somente nas suas pontas e todo o resto do meu corpo sugado por forças que não sou capaz de conter. Não me largueis aqui nesta terra de ninguém, segurai firme meus dedos, eu suplico minha doce rainha, segurai com toda a força que tens e aproximai-me de ti, para que nos abracemos e eu sinta outra vez a paz do teu regaço.

Uma pequena angústia ocupa meus pensamentos, deixar ir embora aquele que se engana a paga da sua doença é inevitável, ao mesmo tempo dilacerante. Perder não amáveis talvez não cause tanto desprendimento, quem se ama quando se vai leva consigo pesadas correntes, mas também faz decair numerosas estrelas. Aprendo um pouco mais a ser dela, fico galgando uma pequena presença que me console, mas ninguém tem forças suficientes para tanto, nem consolar nem ser consolado, deixo que me tirem essas algemas que buscam algo que não seja ela.

Ó minha dama, desfalecimento, fraquezas, dores, fadigas e tudo o mais que possa expressar desânimo, tentam tomar conta de minha vida. Mas que faria? Me entregaria? Desceria desenfreado a caminho da morte? Cederia aos meus condicionamentos? Me levanto para compreender o que em mim fraqueja, para que não seja outro a ceder à perda, a perda que é a busca do ganho doutras coisas que não teu amor. Saem pela porta os que comungam comigo até mesmo da sede de ti, mas não os culpo por tal escolha, talvez fizesse eu o mesmo se não buscasse curar minhas doenças. Uns saem, outros viajam, vão a tão incontável distância que se deixam perder da vista e também perdem a mira dos seus olhos, ficam dias assim, talvez por não te conhecerem, compreendo na carne tal situação, até que se abram os ouvidos para tua voz perdidos ficam todos os que não sabem o que procuram, ou não sabem onde encontrar.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

XXIII {voltas} [íntegra]

Convencido estou a respeito da minha dama e da verdade onde a encontro, dentro de mim um festim de alegria se levanta. Mesmo que nada aconteça como quisera, vejo júbilo apenas em ter andado um pouco mais em tão pouco tempo, os relógios não contam o que cresci sem que contasse eu a proporção dos dias. Pensava eu que os esforços para encontrá-la valiam só por ser esforços e o anúncio do meu íntimo a almas que me conheciam foi o que me levou a encontrá-la guardada nas partes que eu nunca esperei. Ser dela é algo que minha constância agarra quando permanece. Acreditado, não por ser convincente, mas por ser verdadeiro é o que eu computo de outras pessoas a quem entreguei os meus receios, que não mais são só meus. O fechamento deu lugar à abertura, num caminho diferente ao que tinha sido trilhado, as chaves da minha alma estavam em mãos confiantes que me permitiram ver não só o mal consentido, mas agora o bem desejado com forças que se levantavam contra aquelas que fraquejavam.

Minha dama, viver contigo é um prêmio que merecidamente não posso ter, mas que agradecidamente abraço. Questionado a respeito do que sinto só prevalece a verdade, seja do que aconteceu e do que espero que aconteça, um e outro tem seu nome no meu ser, talvez ferida e bálsamo. Agora o segundo, se derrama por sobre o que é ferida e te reconheço agindo aqui elevando-me da condição medíocre da vassalo de mim mesmo a soberano sobre a carne. É prêmio valoroso e impagável conhecer a ti, que eu não me acostume e saiba dar-te o devido amor e afeto, pois os beijos que saem dos teus lábios trazem, com teu hálito perfumado, uma maravilhosa sensação no íntimo, uma mistura de alegria com eternidade.


Tantas vezes foi tão contrária a realidade. Provei cravos de ferro serem fincados na minha carne porque fui atender aos apelos de uma doença. Hoje vejo o quanto sofri sem que fosse necessário. Mas a dor do fracasso ensinou-me ser teu, minha face lançada no chão aprendeu o valor do tempo. Parece que dar muitas voltas é típico de quem não aprende a ser o que precisa, no lugar de ser o que quer. De fora, como o ferro, fui jogado no fogo, depois malhado com pancadas e atirado na água fria até chegar a têmpera, isso me fez grande bem. Nesta hora, com o meu corpo provado, vejo virem a mim os sonhos que solitariamente cultivei sem que a minha esperança se tornasse demasiada, um dom divino que me deste e que não perde seu preço porque não realizo a consecução do objeto esperado. Quero resoluções e não somente conseguir ou ter em mãos a posse de um bem. Tais sonhos, que disto só trazem o nome, porque são mais realidades almejadas e no fogo e na água experimentadas, são de forma inusitada algo que chegara a ser desacreditado. As palavras que tivera eu escutado, dama minha, foram tão funestas e pesadas, que tinha dúvidas se chegaria eu aqui a ter sem meus intentos desonestos o que com pureza minha alma a tanto queria. Mais ainda te conheci, na honestidade e não na farsa, na espera e não no desassossego desesperado por obtenção. Tão curto o caminho e eu procurando labirintos, mas nunca é tão tarde para se dar a possibilidade do rumo certo, como nunca é tão determinado o que foi feito que possa estipular séculos de andar. Tudo é possível aquele que se entrega desmedidamente a ti.

terça-feira, 31 de maio de 2011

XXI {indiferença} [íntegra]

Provei a indiferença, vinda de direções inesperadas, um fúnebre vazio ocupou-me as entranhas, era a rejeição das minhas palavras que faziam-me sentir tamanha perturbação. Eu preocupado com indiferenças humanas, mas nenhum pouco com o que te sou indiferente. Se me arrazoo por não sentir dos outros aquilo que espero, quisera também sentir dor aguda quando te fosse indiferente. Esse caminho em tua direção é longo e todas as vezes que me achego a ti sinto uma estranha força me conduzir para uma sensação mais estranha que essa força, uma maneira de ignorar a ti sem que se veja nisso culpa alguma. Imensas inconveniências cometo, quando nas dores diárias tento agir como se tu não existisses. Procuro achar-me mais facilmente nos elogios ridículos de homens iguais a mim, que aplaudem o que mais tarde esfaqueiam. Muito embora, aquilo que é digno de ser considerado vai-se indo num poço tão fundo que parece sem fim, e quanto mais intensa a descida mais distante vai-se ficando para mim aquilo que é justo e bom.

Indiferença disso ou daquilo, queria ter eu para ser mais dela, pois que, se estar neste lugar ou viajar repentinamente para mim são coisas iguais; não estou amarrado à minha condição transitória. Mas, a indiferença, que a meu respeito detesto que tenham, só age em mim em relação a ela, justamente contra aquela que me faz saber o que é não se arraigar nas pedras.

Fui desonesto com ela, acabei criando essa maldita tranqüilidade de poder me sentir, supostamente, bem sem ela. É tão persuasiva essa paz mentirosa, que querê-la mais que minha dama se tornou veneno doce, que eu bebo sem perceber sua morte. E quantos como eu a ignoram, acham que poderão fazer isso a vida toda, serem indiferentes a tal rainha, que fica à espera do outro lado do rio. Sou pior que animal domesticado, semelhante a um elefante amarrado em pequena estaca, que se acostumou com comida que lhe dão, e ignora a força que tem. Tenho forças, mas me sinto à vontade comendo e bebendo daquilo que me dão, gosto do meu cativeiro porque sou indiferente a ela.

Minha rainha, rasga minhas pupilas, para que se dissipe em mim a ignorância, faz-me voltar meus esforços para a tua verdade, acorda-me dessa sonolência que me faz fascinar coisas grotescas. A dor que sinto por querer olhares agora compreende não as tuas dores, mas a grandeza dos teus amores que noutra infinitude não se comparam aqueles que mendigo.

Minha princesa, perdoai-me tamanha insanidade, desonrosa atitude de te esquecer por fagulhas perdidas na fumaça. Agora sei de que horrores sou capaz, enquanto estás me encantando aos poucos eu deixo contigo os meus ouvidos e te resisto com todo o resto, como se achasse que só um sentido bastasse para que eu ficasse para sempre contigo, enquanto pensava, que corpo presente e vagueio de coração pudessem ser o bastante para morar contigo na minha tenda.

Ah! Agora! Tudo em mim se volta para ti sem que nada possa outra vez vaguear.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

XX {fugir} [trechos]

Tentei abraçar a lua, mas ela me foge das mãos, sofro a espera de que outro dia ela apareça no meu céu por entre as estrelas. Ela me dá sempre uma pequena graça, conhecer mais ainda aquela a quem desejo com ardor. A verdade, minha dama, é que assim que me encontro por querê-la abraçar algo em mim se frustra por não tê-la e me vejo mais livre duma satisfação. Os meus dias são assim, as minhas noites são assim, tudo de pouco em pouco me faz te ver. Meus receios ainda infantis fazem de mim quase que um tolo, parado por não poder arriscar sem reservas, e distante de minhas seguranças. Antigamente, faria um acordo com os meus prazeres, só para apreciar por um mísero instante, o que é ter o poder da satisfação egoísta. Porém hoje, porque cada vez mais te quero, tudo tem perdido um pouco sua grandeza e encontrado sempre mais o seu lugar. Mas não é tão simples, sei as dores que me custas, sei os tomentos que passo, as noites que atravesso, os suspiros ofegantes que saem de dentro de mim. Convencido estou que terei que morrer aos poucos para aos poucos te achar, como que escondida por baixo da minha própria pele, ou envolvida em lençóis de seda.

As vezes penso sequer em escrever-te, mas lanço para longe tal desejo, e não entendo porque tão fácil é desfazer-se de tudo, e difícil tão é permanecer a tenda armada durante a força do vento. Como é covarde abrir mão de tudo por medo do sofrimento, até promessas se tornam vulgares quando tudo ao redor é mais instável diferente do tempo do prometido. Sim, é simples ir embora, fugir, deixar, desistir. Agir assim é esquecer-se da grandeza que tu tens, e ir na direção contrária a tudo que foi encontrado contigo, nos teus braços, é prova certa de que se perdeu no caminho para te achar, pois só é teu aquele que é capaz de reafirmar a opção que fez por ti.

Respiro fundo, olho pela janela, a água cai no chão fazendo seus barulhos enquanto uma criança me pede ouvidos, cada vez mais me reconheço necessitado de ti, porque esmiúças em mim aquilo que não tenho coragem de reparar. É tão real essa compreensão que agora sei o que me faz não querer te buscar ainda, é o que me insinua buscar outro caminho que não aquele que me concederá viver perfeitamente contigo. São grilhões escondidos, disfarçados de doçura, a recompensa que se poderia receber quem repensasse a sua escolha. O bem agora não é tão forte na sua imagem, ele se revelou uma escolha nivelada ao mal que lhe é absurdamente oposto, porém tal pensamento só ganha estatura onde há tal competição. Só se pensa deixar o bem conhecido quando tal bem nunca teve de fato seu lugar, pois que não poderia competir com aquilo que já lhe é inferior por condição. É isso que me tenta arruinar, fazer perder aquela que tanto amo, uma loucura que me faz pensar agir bem quando posso perder tudo o que construí com minha senhora. Mas jogo para longe de mim o querer optar por deixá-la, o que quero é somente seu amor puro que traz consigo o bem e a bondade. Não quero deixá-la, nem ela, nem as coisas que ela me traz.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

XIX {o calor de outras terras...} [trecho]

Estava tão quente o dia, um lugar tão diferente daquele onde comumente nos encontrávamos, minhas roupas molhadas de suor procurando uma brisa para apaziguar o mormaço deixado pelo calor do sol. Na minha tenda, onde o calor não era tanto sentia-me bem com tua suave presença, à noite o deserto arrefecia de tal forma que chegava a fazer frio, mas noutras terras isso não acontecia, meus costumes eram perdidos quando nelas, refrigérios dos mais distintos introduziam-se em mim, quer na bebida, quer na comida, mas o calor insuportável faziam-lhes parecer quais gotas d'água sobre chão seco. Uma refrescante varanda seria bom lugar para estarmos juntos, talvez numa rede ou deitados sobre o chão frio, mas o calor precisaria passar e nossas núpcias continuarem, sem o desconforto do suor nas mãos, nem no toque das nossas peles. Sei parecer loucura, procurar o vento para testemunhar nosso esponsal, mas ele, que te assemelha a direção é único para gerar clima ameno no nosso desposar.

Meu sono vai chegando, se fosse menos calor ficaríamos mais aqui. Depois de saciado o estômago o corpo pede descanso sem que se lhe possa negar esse direito tão justo mediante tamanha têmpera. Muita sede e demasiado cansaço deixam as horas aqui como que prisioneiras, demoram-se a passar e tudo fica delongado pelo seco e árido ambiente ainda sequelado pelo quente. Eu e tu minha dama, ficamos a distância, esse fogo que arde fora me impede aproximar-me. Enquanto meu corpo todo sujo exige um banho, me apercebo cada dia mais menos teu, quando não tenho o que quero na hora e minhas carências a atenção que esperam. Sou menos teu, minha rainha, menos cada vez que quero mais essas coisas que a nossa união- Minhas mãos procuram janelas, enquanto elas abertas só passam o ar movimentado e eu ponho no centro um colo que tanto queria. Mas nem colo, nem brisas amenas conseguem me fazer ser só teu, porque até elas busco por interesse e sem elas não consigo passar minutos.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

XVIII {adoeci} [íntegra]

A doença me tirou o sentido da diferença entre o amargo e o doce, tão estranha essa não sensação do paladar para mim, de tal forma que algo que detesto ou outra coisa a que tenho muito gosto se tornam sem repulsa ou sem prazer. Assim, sinto-me em tantas coisas que afetadas pelo peso de uma espécie de enfermidade mental, me fazem optar pela maldade sem sentir a diferença entre ela e o bem. Todas as vezes que de alguma forma me encontrei em tal situação foram debilidades minhas que me incitaram a errar pela incompreensão entre o que é agradável para ter a minha dama e o que é completamente repugnante e que me afasta dela. O remédio que deixa na garganta resquícios da sua passagem é um tanto quanto desagradável, mas pior que ele é a dor de entender em que situação me encontro só porque estou necessitado de cuidados. E se tal doença me põe frente à minha limitação, que direi eu agora posto diante da compreensão do que me afasta da minha rainha, tal coisa pior que doença curável com remédios de esquina? Debilidades minhas me tornaram refém da minha própria miséria e optar já não era tão livre quando se não ponderava entre o justo e o injusto com o verdadeiro sentido entre tais realidades, pois que uma se confundia com outra motivada pelo fim. Um verdadeiro embaralho se deu na minha razão, que agora queria a loucura achando nela algum proveito, perdendo-se assim longe da minha senhora, minha rainha, indo tão afastadamente que incontáveis medidas se somariam para um cálculo. Uma aberração. O monstro se vestiu de beleza, assim como a fera violenta num corpo belamente escupido faz parecer-se pura e inocente, tudo por uma infame doença que se dissemina por todo o meu corpo.

Eu doente não te quis, enquanto tudo em mim te reclamava por dentro. Achava eu que prestava-te homenagem enquanto me prostrava por sobre tapetes ao avesso pensando ver a tua beleza, por causa da doença que me pervertera a lucidez. Um caos se instalou dentro da minha tenda, cair em mim foi tão demorado que quando vi o que tinha feito, o rastro que ficou com as marcas das minhas pegadas, as lágrimas transbordaram os meus olhos tão cortantes quanto espadas afiadas. Vozes insistem em querer aumentar a culpa pelo cometido, pensando que passos dados constam só de um pé ou de uma pessoa só, mas por mais que se queira a culpa nunca é solitária. A sequela da minha atitude é amarga, só eu sei o seu desgosto, me restou seguir ao encontro da dama e rainha da minha vida, não de resto vou a ela, é que no fim tudo me conduziu aos seus braços, lá quero eu permanecer sem fim, para abrir no horizonte um caminho sem pedras e de pegadas diferentes, onde as núpcias entre eu e minhas dama sejam tão perfeitas quanto sem ocaso, pois que sofrido eu tanto a dor da doença agravante, agora queros os seus remédios que aterrorizam minhas paixões lançando-as para fora do meu corpo para sem volta ficarem, lá onde serão expulsas. Minha dama, a única doença que posso desejar agora é aquela que me faça, tal qual moribundo, depender de teu afeto.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

XVII {a música} [trechos]

Escutei o som de belos instrumentos, ausência de cordas afinadas num ou noutro e a tentativa de alguém querer-lhes tirar o mínimo de barulho agradável. Algumas melancólicas melodias me deixaram inquieto, quase que sem paz, por causa das lembranças que me causaram. Pensei em ti nesta hora, as palmas que batiam perto de mim agradeciam a vida de alguém, mas também incomodavam pelo ritmo incerto, e ao mesmo tempo quebrado, de mãos que não sabiam contar compassos. Pensei em ti, pensei em nós dois, nas nossas danças, que ao som de vozes e notas alcançavam harmonia.

Minha rainha, a voz que tenta sobressair, alcançar um tom mais alto, grita e perde entonação, eu tão levado por condições delicadas me imponho também tal grito, para que chegue minha voz imposta a altura que desejo alcançar, mas não te alcanço, o que consigo somente é tom sobre tom, semi-tons e oitavas que nada valem sem ti, se perdem com o vento e o tempo, assim como na pauta que vai na direção contrária a dos olhos só podendo voltar por sinais. Que condição tão ínfima. Eu quero uma vida de canções puras, de canções de nós dois, mas o máximo que minha limitada fraqueza chega é ao desafino da minha rouca voz, cansada por gritar perdida por aquela que deseja. Se me escutas, atende os meus apelos, e junta-te a mim, para que o sentido das minhas músicas se encontrem, para que tu sejas, minha dama, o motivo das minhas composições, das minhas pausas, dos meus silêncios.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

XIII {a morte} [trechos]

Minha amada, estava ansioso por te ver outra vez, eis que chegou o dia e nos encontrarmos embaixo daquela sombra onde reinam os nossos amores, carinhos e afagos. É tão densa a treva, a morte tenta me guiar por seus passos, não aquela que um dia fará ceder até o que há de mais cativo em mim, mas uma outra que me tenta fazer seguir sendas obscuras. Sim, minha dama, a morte sempre se apresenta como é, mas também outras figuras à semelhança dela se apresentam, embora não sendo ela, sendo o contrário, pois há sim aquela morte que desprende a alma do terreno e transitório, para elevá-lo ao alto, e aquela figura que se mostra como a descida do homem ao próprio inferno, uma dará o prazer do encontro contigo, outra o infortúnio da dor eterna.

Minha rainha, quantos querem viver sem que te encontrem, e eu tantas vezes entre o número destes, preocupado com o que será de minha vida em tantos anos à frente, pendurado numa forca sufocante onde meus pulmões respiram apertadamente a impureza do ar de cigarros. Oh! Que nojo! Não quero, mas me vejo tendendo para tal morte enquanto minha alma te reclama. Todas as vezes que exalo teu perfume meu corpo extasia, de forma tal que o criado perde o seu gosto e o meu gozo é tua alegria. Estar contigo é tão intenso quanto o sol de verão que queima a pele dos que se dispõem sob os seus raios, minha pele sente o toque teu, que não preso ao temporal, rasga o véu da matéria para se achegar a minha finitude. Que eu morra de amores por ti, sem medo me venham as dores, sem que delas eu afaste a razão, pois que são somente dores e nada podem contra nós dois. Só podem, e isso é o que fazem, nos elevar de tal forma a um encontro, que nós dois pela morte do efêmero, podemos nos amar em núpcias verdadeiras. Onde eu me darei a ti segundo a intensidade que te dás a mim e assim um ao outro se dão sem reservas de si mesmos.

Minha dama, que venha a morte, eu não a temerei, que venha ela e me una definitivamente a ti. Mas se vivo estiver que meu corpo mortal te deseje também definitivamente, para que se não morto em meu corpo, estejam mortos meus sentidos para tudo o que possa os fazer divagar longe de ti. Esse mistério da nossa união é tão profundo que foge ao entendimento humano compreendê-lo.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

XII {dias de chuva} [trechos]

Muitas chuvas nesses dias, nuvens turvas, ausência do sol, um pouco de frio e também tristeza não muito freqüentes nestas épocas, fazem desse tempo um pouco diferente dos outros. A lama e os pés, molhados e sujos, percorrem o caminho de todos os dias buscando amparo para não se molhar, à noite as estrelas não são vistas, trovões e relâmpagos espalham ainda mais o ambiente de morbidez. Chuvas tão rápidas quanto fortes varrem a terra para os bueiros malcheirosos. Uns sob cobertas não se molham mas se enchem de torpor tentando amenizar o sofrimento que faz lembrar tal cenário. Todos fogem, ou suportam, a tal enfado, toleram por meio de algo que se faça esquecer e se possa recorrer quando se dá a conta da realidade. E eu em minhas preces pedindo algo que me seja a sombra do que desejo de fato também com a vontade emburrada em fugir por um instante da frustração e das reações que me causam essa morada. Os pés sujos de lama são os meus e as angústias minhas são as que a morbidez dessas chuvas molham. Tento amparar-me mas em vão me esforço para tanto, ao passo que minha cabeça não está envolvida por água os meus joelhos estão titubeando na correnteza das enxurradas. Mas o homem que te conhece amada, não sofre o risco de padecer na direção do ímpeto, este último é como as asas de uma borboleta sem muita força para o que é grande. Minha rainha, não são só esses dias que me acabam por dentro e por fora me humilhando e pondo-me sob condição servil. Eles ganham a força das paixões que objetam uma sombra, um som, um cheiro, uma cor, um gosto. Ser só teu, jogado absurdamente em teus braços é o que procuro, sem que a tristeza me tente infundir a loucura de pensar que estou liberto quando faço a minha vontade somente.

Fico a espera de ver tocar um telefone me dizendo coisas que quero ouvir, que me fazem sentir que as seguranças são as situações por sobre as quais se pode constituir alguma coisa. Mas me ligam, e minha amada, para o bem de nossa união, fico a desejar somente que se acabe tal contato para que nada seja contrário a nossa paz. É assim, as chuvas trazem consigo os ventos e muitas outras coisas, que não só fazem parte da força da natureza, trazem consigo lembranças, coisas um dia esquecidas mas que teimam em vir a minha frente para me fazer tendenciar à maldade ou ao perigo de cair. Trazem sonhos, fantasias, constrangimento, mas também desejo de te encontrar em tais infortúnios.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

IX {romance} [trechos]

Sou tão apaixonado por ti, quisera todos os dias fazer poesias para nosso enlace. A porta está entreaberta e nesta noite vejo-te brilhante com tal intensidade que o sol não se compara a ti. Tentam nos apartar, em vão se esforçam em oporem-se aquilo que nasceu para permanecer um só. Mesmo que o desenfreio dos meus apetites busquem à outra o fazem só até cansarem, mais tarde, fadados e confusos acorrem a tua calçada.

Minha dama, é tão sem sabor a vida humana quando longe um do outro estamos, é tudo tão sem sentido. Sempre que reinas a paz alenta nossos passos. As vozes estranhas me afetam a escuta e fica minha cabeça a imaginar o que acontece quando à minha vista não se dispõem aos meus desejos. Ficam criando a desconfiança, o medo, a traição, a inveja e tudo aquilo que só causa desordem, desordem atrás de desordem, só porque numa ou noutra hora eu me separo o mínimo de ti.

O cheiro das flores são como tu, ou tu como o cheiro das flores, ninguém prende, estão de tal maneira entregues ao ar, que este lhe espalha a fragrância. Assim o mesmo que te espalha também te entrega por não te ter como posse. É isso que quero, ser contigo de tal maneira entregue que ninguém me tome de mim mesmo, para ser lançado de mim mesmo ao anelo do meu ser. Quero minha dama, minha senhora e rainha, me despir de tudo o que não me deixe ser una carne contigo, uno espírito contigo, pois que, una tu no meu corpo e uno eu no teu espírito.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

VIII {dezembro sem ti} [íntegra]

Como são ingratos esses dias sem ti, dezembro é tristeza e solidão quando não te espreitas à minha porta, quando aquelas insinuações de outras me alentam por segundos apenas ao sensível. De sensações e sensações meu corpo se cansa e esses dias se tornam um labor exaustivo e uma desenfreada queda em direção de si mesmo. No prazer e só nele, meus membros encontram um pouco de tranquilidade, que posso chamar de anestesia. Mas o definitivo que deseja o meu ser é tão diferente disso que em segundos se passa, que no esconderijo do íntimo sei o que procura de fato esta satisfação, esse gozo. Só maldade, somente deslealdade e desonestidade, sofro e vejo nesses dias, do tipo que prende tudo ao que se foi, até à promessas atrasadas, ou do tipo deslealdade que me tenta obrigar a corresponder à altura do ato que me fora empreendido.

Minha virgem, minha dama, vem ao meu encontro, que as serras se abaixem quando virem vossa beleza, que os ventos parem ao suspiro de tua boca, que a flores exalem o teu cheiro e pureza, te desejo minha bela, eu pior que fera te quero tão puramente que estremeço nos meus nervos o anelo que trago de ti.


É tão magnífico te encontrar, tão cheio de graça o sorriso de teus lábios, tão fascinante a luz dos teus olhos. Sempre que ao gosto do tato te aprecio meus dias são tão ricos e vigorosos, sempre tão leves e espontâneos. Fica para sempre, não deixes que meus pensamentos possam correr noutra direção que não tu minha senhora. Não, não quero jamais ter que esperar por outra que não a ti. Vem amada! Minha vida é vida quando nos encontramos, sabes disso como também eu o sei e quero que seja eterno. Na minha memória, vão e voltam o prazer de relembrar nossos abraços, ao passo que quando vão perdem o gozo, mas quando chegam trazem felicidade. Por isso desejo a imutabilidade para que as circunstâncias não favoreçam minha prisão fora de ti.


Os murmúrios da noite reclamam uma libertina senhora que lhes multiplica o efêmero, ao passo que minha rainha se dá a todos com eternidade. Como somos cegos, a treva e a nuvem encobriram nossas visões para o império libertador, preferindo com tal cegueira depender do prescindível.


Minha cama está a espera para que no sono eu também te encontre, não somente sonhando, mas no repouso da fadiga poder provar que o limite nos permite proximidade, mesmo que deste eu não posse me soltar, ele não me impede de se todo teu à medida que quando ele é mais forte eu sou capaz de vencê-lo, até que na hora derradeira ele mesmo seja mediador de nossos encontros. Sim minha dama, até o cansaço me deixa te ver agora sem o gosto do descanso só com o esforço do desprendimento, de si mesmo e até do que é justo.


Amada minha, não tardeis em me dar vossos beijos, não demoreis em me dar vossos abraços, nem me proveis na espera de ti, correi ao redor de minha tenda e deixa teus cabelos graciosos pularem comigo ao som do vento sobre as folhas. Minha querida voltemos aos dias de outrora quando andávamos sem medo no jardim, sem ladrões, sem prisões, sem dores. Voltemos às nossas núpcias, àquela entrega total dum ao outro. Voltemos minha amada, ou volte somente eu, pois eu sou o mutável desta história.

VI {ainda preso...} [trechos]

Fico eu me aprisionando a coisas que não são, e que mesmo sem ser me fazem sofrer por elas, por não ser e por me seduzir infantilmente apelando para o prazer que tenta atender a solicitação do sangue. Quero ir contigo minha mestra, ir lá no âmago desse esponsal, onde se revelam todos os desejos do amado e da amada. Sim, minha querida, já sei o que queres, porém, seja mais ainda clara para que eu escute com tal franqueza, que nada em mim seja descartado por conhecer a ti, senão totalmente, pelo menos agora em parte.

No arrebol um suspiro cantou forte aos meus ouvidos, a aurora fulgura tão forte que seu brilho vara a compreensão humana, nada pode confundí-la. Assim, minha rainha, espero-te ardente, para que vivamos a altura daquilo que somos, não como fuga, mas como sinal de que tudo o que reluz ou brilha e que hoje se tornou inimigo de nós dois.


Minhas entranhas sentem um tremor estranho, é a falível miséria querendo me tornar cativo. Não quero, não, não quero experimentar a condenação do réu, que sentenciado ficará a espera por anos de ti na condição da matéria, quero viver a lúcida certeza de que com os pés na terra posso te ter sem que eu me eleve superficialmente. Creio que minha vida te encontra todos os dias nos descampados, nos alpendres e caminhos estreitos sem que se sinta encontrar contigo, mas tu estás cá na minha prisão me libertando, numa prisão que se desfaz a cada segundo quando morro, a cada passo quando viajo na vossa inefável altura. Quão belo, minha menina, te ter mesmo em parte, mesmo aos poucos, mas vendo-te aproximar-te totalmente para nos termos em plenitude, tu a mim e eu a ti, sem regresso.


E esta prisão não me prende, porque penso em vós todos os dias, e meus pensamentos livres até de si mesmos me surpreendem em sonhos tão belos, em imagens tão puras de nós dois. Quem me tirará de ti? Quem ousará nos afastar a não seu eu mesmo, reclinado sobre as minhas reclamações quando quero me prender em vez de me soltar.

III {a noite...} [íntegra]

A lua nova fez-me a noite ficar mais longa. Eu encabulado por querer e não ser, por buscar e não achar, desenhei um castelo onde imperava aquela rainha que me faria por toda a vida conhecer a sua paz. Num delicado copo depositei o que eram esperanças, para encontrar no prato não só o deleite do meu apetite, mas a alegria de ficar à mesa, de comungar do que não é simplesmente carnal, humano e limitado, mas totalmente transcendente e vivente, imortal e incontável. Ela como que aos poucos foi se mostrando, enquanto eu ainda acordava meus sonhos por coisas imensas. Sim quão belo foi encontrá-la, assim sorrateiramente, à porta de minha tenda, vê-la estender sobre mim seus braços abertos, e eu querendo a imitar para sermos só um outra vez.

Nas sombras do passado apareciam grandes feras que intentavam contra nossa união, ela ria de mim como que caçoando, porque eu tolo como sempre me arrazoava com aquilo que já não existia a não ser na memória e no tempo sem regresso. Assim ficamos, e ela brincava comigo e me dizia insistentemente que olhasse para ela com paixão de agora, enquanto eu preso com insatisfação do ontem me acusava toda hora de não ser digno dela, de nunca poder conhecê-la.

E nós nos conhecemos, quem diria que não? Quem negaria que ela veio quando tudo se passou contrário ao que lhe traria? Ela veio e me ajudou a amar meu passado sem que me desfizesse dele, ela me encantou tão gravemente que fiquei doente crônico por suas graças. Ela me fez caminhar, não só pelas sombras, mas por tudo o que dava medo até no sol do meio dia. Quão agradável se mostrou me fazendo irromper para além das minhas mazelas, me levando para os campos de trigo maduros que se apoiam na força do vento para bailar sem receios. Me conduziu por estradas de chão, por caminhos tão sinuosos que me fazem ver outras belezas no caminho, que se vão para trás um passo a cada passo que dou para frente. Me fez aperceber que ater-se ao passado é parar durante o percurso para olhar o que se tem deixado sem continuar andando, ao passo que o horizonte me convida a novas razões para ir.

Eu não quero deixa-la jamais, mesmo que me cortem todos os membros, não quero perdê-la, pois sei o que me custou, e não só por isso, porque mesmo que nada custasse somente a queria sem porquês.

I - {primeiro encontro} [trechos]

Mas veio e veio de maneira tal que já não sou eu mesmo que me dirijo, ela me eleva a transcender para além do belo, para além do visto, para além das idéias, para além do próprio além.

Fui escolhido por ela e hoje eu também nela a escolho e quero-a mais dos que as coisas que me impeçam de tê-la sem ter, visto que nem posse posso assumir dela, para que não corra o risco de roubar-lhe a identidade para assumir o meu modelo dela mesma. Assim, ela seja e reine segundo os seus ditames, segundo as suas normas, importa que seja eu dela não de mim mesmo.

Aos poucos me fez compreender que respostas não são atos irrevogáveis, pelo contrário, a sua irrevogabilidade lhe impediria de ser o que ela é, assim assumo, todos os dias, frente a mim mesmo novas possibilidades mesmo quando a imposição do meu passado me tenta refrear a perspectiva do novo. De pouco em pouco atino dentro de mim que ela só é, e que ninguém a perturbará, e se assim pensar perturbou seus ídolos porque ela é intacta. Ela me conquistou, como território todo dela, não posso evitá-la e se assim eu tentar todos os dias ela me espreitará sem guerra. Eu que guerreei contra ela provo agora a sua paz e agora sem combater somos tão íntimos que se nos confundimos, mesmo quando eu me tento impor meus passos de outrora ela é a mesma...