terça-feira, 31 de maio de 2011

XXI {indiferença} [íntegra]

Provei a indiferença, vinda de direções inesperadas, um fúnebre vazio ocupou-me as entranhas, era a rejeição das minhas palavras que faziam-me sentir tamanha perturbação. Eu preocupado com indiferenças humanas, mas nenhum pouco com o que te sou indiferente. Se me arrazoo por não sentir dos outros aquilo que espero, quisera também sentir dor aguda quando te fosse indiferente. Esse caminho em tua direção é longo e todas as vezes que me achego a ti sinto uma estranha força me conduzir para uma sensação mais estranha que essa força, uma maneira de ignorar a ti sem que se veja nisso culpa alguma. Imensas inconveniências cometo, quando nas dores diárias tento agir como se tu não existisses. Procuro achar-me mais facilmente nos elogios ridículos de homens iguais a mim, que aplaudem o que mais tarde esfaqueiam. Muito embora, aquilo que é digno de ser considerado vai-se indo num poço tão fundo que parece sem fim, e quanto mais intensa a descida mais distante vai-se ficando para mim aquilo que é justo e bom.

Indiferença disso ou daquilo, queria ter eu para ser mais dela, pois que, se estar neste lugar ou viajar repentinamente para mim são coisas iguais; não estou amarrado à minha condição transitória. Mas, a indiferença, que a meu respeito detesto que tenham, só age em mim em relação a ela, justamente contra aquela que me faz saber o que é não se arraigar nas pedras.

Fui desonesto com ela, acabei criando essa maldita tranqüilidade de poder me sentir, supostamente, bem sem ela. É tão persuasiva essa paz mentirosa, que querê-la mais que minha dama se tornou veneno doce, que eu bebo sem perceber sua morte. E quantos como eu a ignoram, acham que poderão fazer isso a vida toda, serem indiferentes a tal rainha, que fica à espera do outro lado do rio. Sou pior que animal domesticado, semelhante a um elefante amarrado em pequena estaca, que se acostumou com comida que lhe dão, e ignora a força que tem. Tenho forças, mas me sinto à vontade comendo e bebendo daquilo que me dão, gosto do meu cativeiro porque sou indiferente a ela.

Minha rainha, rasga minhas pupilas, para que se dissipe em mim a ignorância, faz-me voltar meus esforços para a tua verdade, acorda-me dessa sonolência que me faz fascinar coisas grotescas. A dor que sinto por querer olhares agora compreende não as tuas dores, mas a grandeza dos teus amores que noutra infinitude não se comparam aqueles que mendigo.

Minha princesa, perdoai-me tamanha insanidade, desonrosa atitude de te esquecer por fagulhas perdidas na fumaça. Agora sei de que horrores sou capaz, enquanto estás me encantando aos poucos eu deixo contigo os meus ouvidos e te resisto com todo o resto, como se achasse que só um sentido bastasse para que eu ficasse para sempre contigo, enquanto pensava, que corpo presente e vagueio de coração pudessem ser o bastante para morar contigo na minha tenda.

Ah! Agora! Tudo em mim se volta para ti sem que nada possa outra vez vaguear.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

XX {fugir} [trechos]

Tentei abraçar a lua, mas ela me foge das mãos, sofro a espera de que outro dia ela apareça no meu céu por entre as estrelas. Ela me dá sempre uma pequena graça, conhecer mais ainda aquela a quem desejo com ardor. A verdade, minha dama, é que assim que me encontro por querê-la abraçar algo em mim se frustra por não tê-la e me vejo mais livre duma satisfação. Os meus dias são assim, as minhas noites são assim, tudo de pouco em pouco me faz te ver. Meus receios ainda infantis fazem de mim quase que um tolo, parado por não poder arriscar sem reservas, e distante de minhas seguranças. Antigamente, faria um acordo com os meus prazeres, só para apreciar por um mísero instante, o que é ter o poder da satisfação egoísta. Porém hoje, porque cada vez mais te quero, tudo tem perdido um pouco sua grandeza e encontrado sempre mais o seu lugar. Mas não é tão simples, sei as dores que me custas, sei os tomentos que passo, as noites que atravesso, os suspiros ofegantes que saem de dentro de mim. Convencido estou que terei que morrer aos poucos para aos poucos te achar, como que escondida por baixo da minha própria pele, ou envolvida em lençóis de seda.

As vezes penso sequer em escrever-te, mas lanço para longe tal desejo, e não entendo porque tão fácil é desfazer-se de tudo, e difícil tão é permanecer a tenda armada durante a força do vento. Como é covarde abrir mão de tudo por medo do sofrimento, até promessas se tornam vulgares quando tudo ao redor é mais instável diferente do tempo do prometido. Sim, é simples ir embora, fugir, deixar, desistir. Agir assim é esquecer-se da grandeza que tu tens, e ir na direção contrária a tudo que foi encontrado contigo, nos teus braços, é prova certa de que se perdeu no caminho para te achar, pois só é teu aquele que é capaz de reafirmar a opção que fez por ti.

Respiro fundo, olho pela janela, a água cai no chão fazendo seus barulhos enquanto uma criança me pede ouvidos, cada vez mais me reconheço necessitado de ti, porque esmiúças em mim aquilo que não tenho coragem de reparar. É tão real essa compreensão que agora sei o que me faz não querer te buscar ainda, é o que me insinua buscar outro caminho que não aquele que me concederá viver perfeitamente contigo. São grilhões escondidos, disfarçados de doçura, a recompensa que se poderia receber quem repensasse a sua escolha. O bem agora não é tão forte na sua imagem, ele se revelou uma escolha nivelada ao mal que lhe é absurdamente oposto, porém tal pensamento só ganha estatura onde há tal competição. Só se pensa deixar o bem conhecido quando tal bem nunca teve de fato seu lugar, pois que não poderia competir com aquilo que já lhe é inferior por condição. É isso que me tenta arruinar, fazer perder aquela que tanto amo, uma loucura que me faz pensar agir bem quando posso perder tudo o que construí com minha senhora. Mas jogo para longe de mim o querer optar por deixá-la, o que quero é somente seu amor puro que traz consigo o bem e a bondade. Não quero deixá-la, nem ela, nem as coisas que ela me traz.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

XIX {o calor de outras terras...} [trecho]

Estava tão quente o dia, um lugar tão diferente daquele onde comumente nos encontrávamos, minhas roupas molhadas de suor procurando uma brisa para apaziguar o mormaço deixado pelo calor do sol. Na minha tenda, onde o calor não era tanto sentia-me bem com tua suave presença, à noite o deserto arrefecia de tal forma que chegava a fazer frio, mas noutras terras isso não acontecia, meus costumes eram perdidos quando nelas, refrigérios dos mais distintos introduziam-se em mim, quer na bebida, quer na comida, mas o calor insuportável faziam-lhes parecer quais gotas d'água sobre chão seco. Uma refrescante varanda seria bom lugar para estarmos juntos, talvez numa rede ou deitados sobre o chão frio, mas o calor precisaria passar e nossas núpcias continuarem, sem o desconforto do suor nas mãos, nem no toque das nossas peles. Sei parecer loucura, procurar o vento para testemunhar nosso esponsal, mas ele, que te assemelha a direção é único para gerar clima ameno no nosso desposar.

Meu sono vai chegando, se fosse menos calor ficaríamos mais aqui. Depois de saciado o estômago o corpo pede descanso sem que se lhe possa negar esse direito tão justo mediante tamanha têmpera. Muita sede e demasiado cansaço deixam as horas aqui como que prisioneiras, demoram-se a passar e tudo fica delongado pelo seco e árido ambiente ainda sequelado pelo quente. Eu e tu minha dama, ficamos a distância, esse fogo que arde fora me impede aproximar-me. Enquanto meu corpo todo sujo exige um banho, me apercebo cada dia mais menos teu, quando não tenho o que quero na hora e minhas carências a atenção que esperam. Sou menos teu, minha rainha, menos cada vez que quero mais essas coisas que a nossa união- Minhas mãos procuram janelas, enquanto elas abertas só passam o ar movimentado e eu ponho no centro um colo que tanto queria. Mas nem colo, nem brisas amenas conseguem me fazer ser só teu, porque até elas busco por interesse e sem elas não consigo passar minutos.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

XVIII {adoeci} [íntegra]

A doença me tirou o sentido da diferença entre o amargo e o doce, tão estranha essa não sensação do paladar para mim, de tal forma que algo que detesto ou outra coisa a que tenho muito gosto se tornam sem repulsa ou sem prazer. Assim, sinto-me em tantas coisas que afetadas pelo peso de uma espécie de enfermidade mental, me fazem optar pela maldade sem sentir a diferença entre ela e o bem. Todas as vezes que de alguma forma me encontrei em tal situação foram debilidades minhas que me incitaram a errar pela incompreensão entre o que é agradável para ter a minha dama e o que é completamente repugnante e que me afasta dela. O remédio que deixa na garganta resquícios da sua passagem é um tanto quanto desagradável, mas pior que ele é a dor de entender em que situação me encontro só porque estou necessitado de cuidados. E se tal doença me põe frente à minha limitação, que direi eu agora posto diante da compreensão do que me afasta da minha rainha, tal coisa pior que doença curável com remédios de esquina? Debilidades minhas me tornaram refém da minha própria miséria e optar já não era tão livre quando se não ponderava entre o justo e o injusto com o verdadeiro sentido entre tais realidades, pois que uma se confundia com outra motivada pelo fim. Um verdadeiro embaralho se deu na minha razão, que agora queria a loucura achando nela algum proveito, perdendo-se assim longe da minha senhora, minha rainha, indo tão afastadamente que incontáveis medidas se somariam para um cálculo. Uma aberração. O monstro se vestiu de beleza, assim como a fera violenta num corpo belamente escupido faz parecer-se pura e inocente, tudo por uma infame doença que se dissemina por todo o meu corpo.

Eu doente não te quis, enquanto tudo em mim te reclamava por dentro. Achava eu que prestava-te homenagem enquanto me prostrava por sobre tapetes ao avesso pensando ver a tua beleza, por causa da doença que me pervertera a lucidez. Um caos se instalou dentro da minha tenda, cair em mim foi tão demorado que quando vi o que tinha feito, o rastro que ficou com as marcas das minhas pegadas, as lágrimas transbordaram os meus olhos tão cortantes quanto espadas afiadas. Vozes insistem em querer aumentar a culpa pelo cometido, pensando que passos dados constam só de um pé ou de uma pessoa só, mas por mais que se queira a culpa nunca é solitária. A sequela da minha atitude é amarga, só eu sei o seu desgosto, me restou seguir ao encontro da dama e rainha da minha vida, não de resto vou a ela, é que no fim tudo me conduziu aos seus braços, lá quero eu permanecer sem fim, para abrir no horizonte um caminho sem pedras e de pegadas diferentes, onde as núpcias entre eu e minhas dama sejam tão perfeitas quanto sem ocaso, pois que sofrido eu tanto a dor da doença agravante, agora queros os seus remédios que aterrorizam minhas paixões lançando-as para fora do meu corpo para sem volta ficarem, lá onde serão expulsas. Minha dama, a única doença que posso desejar agora é aquela que me faça, tal qual moribundo, depender de teu afeto.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

XVII {a música} [trechos]

Escutei o som de belos instrumentos, ausência de cordas afinadas num ou noutro e a tentativa de alguém querer-lhes tirar o mínimo de barulho agradável. Algumas melancólicas melodias me deixaram inquieto, quase que sem paz, por causa das lembranças que me causaram. Pensei em ti nesta hora, as palmas que batiam perto de mim agradeciam a vida de alguém, mas também incomodavam pelo ritmo incerto, e ao mesmo tempo quebrado, de mãos que não sabiam contar compassos. Pensei em ti, pensei em nós dois, nas nossas danças, que ao som de vozes e notas alcançavam harmonia.

Minha rainha, a voz que tenta sobressair, alcançar um tom mais alto, grita e perde entonação, eu tão levado por condições delicadas me imponho também tal grito, para que chegue minha voz imposta a altura que desejo alcançar, mas não te alcanço, o que consigo somente é tom sobre tom, semi-tons e oitavas que nada valem sem ti, se perdem com o vento e o tempo, assim como na pauta que vai na direção contrária a dos olhos só podendo voltar por sinais. Que condição tão ínfima. Eu quero uma vida de canções puras, de canções de nós dois, mas o máximo que minha limitada fraqueza chega é ao desafino da minha rouca voz, cansada por gritar perdida por aquela que deseja. Se me escutas, atende os meus apelos, e junta-te a mim, para que o sentido das minhas músicas se encontrem, para que tu sejas, minha dama, o motivo das minhas composições, das minhas pausas, dos meus silêncios.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

XIII {a morte} [trechos]

Minha amada, estava ansioso por te ver outra vez, eis que chegou o dia e nos encontrarmos embaixo daquela sombra onde reinam os nossos amores, carinhos e afagos. É tão densa a treva, a morte tenta me guiar por seus passos, não aquela que um dia fará ceder até o que há de mais cativo em mim, mas uma outra que me tenta fazer seguir sendas obscuras. Sim, minha dama, a morte sempre se apresenta como é, mas também outras figuras à semelhança dela se apresentam, embora não sendo ela, sendo o contrário, pois há sim aquela morte que desprende a alma do terreno e transitório, para elevá-lo ao alto, e aquela figura que se mostra como a descida do homem ao próprio inferno, uma dará o prazer do encontro contigo, outra o infortúnio da dor eterna.

Minha rainha, quantos querem viver sem que te encontrem, e eu tantas vezes entre o número destes, preocupado com o que será de minha vida em tantos anos à frente, pendurado numa forca sufocante onde meus pulmões respiram apertadamente a impureza do ar de cigarros. Oh! Que nojo! Não quero, mas me vejo tendendo para tal morte enquanto minha alma te reclama. Todas as vezes que exalo teu perfume meu corpo extasia, de forma tal que o criado perde o seu gosto e o meu gozo é tua alegria. Estar contigo é tão intenso quanto o sol de verão que queima a pele dos que se dispõem sob os seus raios, minha pele sente o toque teu, que não preso ao temporal, rasga o véu da matéria para se achegar a minha finitude. Que eu morra de amores por ti, sem medo me venham as dores, sem que delas eu afaste a razão, pois que são somente dores e nada podem contra nós dois. Só podem, e isso é o que fazem, nos elevar de tal forma a um encontro, que nós dois pela morte do efêmero, podemos nos amar em núpcias verdadeiras. Onde eu me darei a ti segundo a intensidade que te dás a mim e assim um ao outro se dão sem reservas de si mesmos.

Minha dama, que venha a morte, eu não a temerei, que venha ela e me una definitivamente a ti. Mas se vivo estiver que meu corpo mortal te deseje também definitivamente, para que se não morto em meu corpo, estejam mortos meus sentidos para tudo o que possa os fazer divagar longe de ti. Esse mistério da nossa união é tão profundo que foge ao entendimento humano compreendê-lo.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

XII {dias de chuva} [trechos]

Muitas chuvas nesses dias, nuvens turvas, ausência do sol, um pouco de frio e também tristeza não muito freqüentes nestas épocas, fazem desse tempo um pouco diferente dos outros. A lama e os pés, molhados e sujos, percorrem o caminho de todos os dias buscando amparo para não se molhar, à noite as estrelas não são vistas, trovões e relâmpagos espalham ainda mais o ambiente de morbidez. Chuvas tão rápidas quanto fortes varrem a terra para os bueiros malcheirosos. Uns sob cobertas não se molham mas se enchem de torpor tentando amenizar o sofrimento que faz lembrar tal cenário. Todos fogem, ou suportam, a tal enfado, toleram por meio de algo que se faça esquecer e se possa recorrer quando se dá a conta da realidade. E eu em minhas preces pedindo algo que me seja a sombra do que desejo de fato também com a vontade emburrada em fugir por um instante da frustração e das reações que me causam essa morada. Os pés sujos de lama são os meus e as angústias minhas são as que a morbidez dessas chuvas molham. Tento amparar-me mas em vão me esforço para tanto, ao passo que minha cabeça não está envolvida por água os meus joelhos estão titubeando na correnteza das enxurradas. Mas o homem que te conhece amada, não sofre o risco de padecer na direção do ímpeto, este último é como as asas de uma borboleta sem muita força para o que é grande. Minha rainha, não são só esses dias que me acabam por dentro e por fora me humilhando e pondo-me sob condição servil. Eles ganham a força das paixões que objetam uma sombra, um som, um cheiro, uma cor, um gosto. Ser só teu, jogado absurdamente em teus braços é o que procuro, sem que a tristeza me tente infundir a loucura de pensar que estou liberto quando faço a minha vontade somente.

Fico a espera de ver tocar um telefone me dizendo coisas que quero ouvir, que me fazem sentir que as seguranças são as situações por sobre as quais se pode constituir alguma coisa. Mas me ligam, e minha amada, para o bem de nossa união, fico a desejar somente que se acabe tal contato para que nada seja contrário a nossa paz. É assim, as chuvas trazem consigo os ventos e muitas outras coisas, que não só fazem parte da força da natureza, trazem consigo lembranças, coisas um dia esquecidas mas que teimam em vir a minha frente para me fazer tendenciar à maldade ou ao perigo de cair. Trazem sonhos, fantasias, constrangimento, mas também desejo de te encontrar em tais infortúnios.