quinta-feira, 5 de maio de 2011

XIII {a morte} [trechos]

Minha amada, estava ansioso por te ver outra vez, eis que chegou o dia e nos encontrarmos embaixo daquela sombra onde reinam os nossos amores, carinhos e afagos. É tão densa a treva, a morte tenta me guiar por seus passos, não aquela que um dia fará ceder até o que há de mais cativo em mim, mas uma outra que me tenta fazer seguir sendas obscuras. Sim, minha dama, a morte sempre se apresenta como é, mas também outras figuras à semelhança dela se apresentam, embora não sendo ela, sendo o contrário, pois há sim aquela morte que desprende a alma do terreno e transitório, para elevá-lo ao alto, e aquela figura que se mostra como a descida do homem ao próprio inferno, uma dará o prazer do encontro contigo, outra o infortúnio da dor eterna.

Minha rainha, quantos querem viver sem que te encontrem, e eu tantas vezes entre o número destes, preocupado com o que será de minha vida em tantos anos à frente, pendurado numa forca sufocante onde meus pulmões respiram apertadamente a impureza do ar de cigarros. Oh! Que nojo! Não quero, mas me vejo tendendo para tal morte enquanto minha alma te reclama. Todas as vezes que exalo teu perfume meu corpo extasia, de forma tal que o criado perde o seu gosto e o meu gozo é tua alegria. Estar contigo é tão intenso quanto o sol de verão que queima a pele dos que se dispõem sob os seus raios, minha pele sente o toque teu, que não preso ao temporal, rasga o véu da matéria para se achegar a minha finitude. Que eu morra de amores por ti, sem medo me venham as dores, sem que delas eu afaste a razão, pois que são somente dores e nada podem contra nós dois. Só podem, e isso é o que fazem, nos elevar de tal forma a um encontro, que nós dois pela morte do efêmero, podemos nos amar em núpcias verdadeiras. Onde eu me darei a ti segundo a intensidade que te dás a mim e assim um ao outro se dão sem reservas de si mesmos.

Minha dama, que venha a morte, eu não a temerei, que venha ela e me una definitivamente a ti. Mas se vivo estiver que meu corpo mortal te deseje também definitivamente, para que se não morto em meu corpo, estejam mortos meus sentidos para tudo o que possa os fazer divagar longe de ti. Esse mistério da nossa união é tão profundo que foge ao entendimento humano compreendê-lo.

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