terça-feira, 21 de junho de 2011

XXIV {o nada} [trechos]

O homem que se deixa pertencer a ela encontrará certamente durante a estrada certas indagações a respeito dele mesmo, inveja por parte de alguns, desdém por parte de outros, traição, rancor, até ira ou ódio possam sentir por quem queira ser totalmente da bela princesa. E se assim fosse o contrário questionável seria estar a nau no rumo certo, pois que, as intempéries fazem parte das rotas dos mares. É nesta hora que se sabe a quem de fato se conhece, ou a quem verdadeiramente se pertence: quando a lua não mais dá seu brilho, quando nos derredores tudo contrasta, quando no íntimo nada é estável. Talvez, quando todo este confuso se der, se consiga ver ela em seu total esplendor, porque o nada é a condição mais próxima dessa senhora. Quando se despedaçam os sonhos, quando morrem as expectativas, quando tremem as bases e há instabilidade e em todo este meio nada mais consiga prender a vida de alguém. Me sinto assim, meu tapete foi puxado, estou no chão e em nada posso me agarrar, nenhuma das mutáveis seguranças são mais meu porto, de certa forma, quase que de maneira obrigada, sou lançado a ver que tal condição é oportuna para se dar a ela.

Minha dama, cada hora aqui neste matadouro é um tormento. Quero te ter e fico dividido, em mim mesmo desencontrado, trouxe tantas coisas comigo para caminhar na tua direção que os meus passos se tornaram pesados e parece que é uma eternidade cada segundo que demoro para me achegar a ti. Do meu lado passos iguais aos meus não confiam em nada que lhes seja dito, outros traem seus corações e o amor que conheceram e isso também me deixa como mar bravio. Sons de toda a espécie insistem que desista de ti. Mas eu te desejo, sim minha dama, me perderia longe de ti, pois ninguém como tu conhece o que é perene. Eu não viveria sem ti. Essa dolorosa hora me deixa confuso, mas não conseguirá me separar das tuas mãos. Nossos dedos entrelaçados firmam nossa união, e me vejo assegurado somente nas suas pontas e todo o resto do meu corpo sugado por forças que não sou capaz de conter. Não me largueis aqui nesta terra de ninguém, segurai firme meus dedos, eu suplico minha doce rainha, segurai com toda a força que tens e aproximai-me de ti, para que nos abracemos e eu sinta outra vez a paz do teu regaço.

Uma pequena angústia ocupa meus pensamentos, deixar ir embora aquele que se engana a paga da sua doença é inevitável, ao mesmo tempo dilacerante. Perder não amáveis talvez não cause tanto desprendimento, quem se ama quando se vai leva consigo pesadas correntes, mas também faz decair numerosas estrelas. Aprendo um pouco mais a ser dela, fico galgando uma pequena presença que me console, mas ninguém tem forças suficientes para tanto, nem consolar nem ser consolado, deixo que me tirem essas algemas que buscam algo que não seja ela.

Ó minha dama, desfalecimento, fraquezas, dores, fadigas e tudo o mais que possa expressar desânimo, tentam tomar conta de minha vida. Mas que faria? Me entregaria? Desceria desenfreado a caminho da morte? Cederia aos meus condicionamentos? Me levanto para compreender o que em mim fraqueja, para que não seja outro a ceder à perda, a perda que é a busca do ganho doutras coisas que não teu amor. Saem pela porta os que comungam comigo até mesmo da sede de ti, mas não os culpo por tal escolha, talvez fizesse eu o mesmo se não buscasse curar minhas doenças. Uns saem, outros viajam, vão a tão incontável distância que se deixam perder da vista e também perdem a mira dos seus olhos, ficam dias assim, talvez por não te conhecerem, compreendo na carne tal situação, até que se abram os ouvidos para tua voz perdidos ficam todos os que não sabem o que procuram, ou não sabem onde encontrar.

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