quarta-feira, 25 de maio de 2011

XX {fugir} [trechos]

Tentei abraçar a lua, mas ela me foge das mãos, sofro a espera de que outro dia ela apareça no meu céu por entre as estrelas. Ela me dá sempre uma pequena graça, conhecer mais ainda aquela a quem desejo com ardor. A verdade, minha dama, é que assim que me encontro por querê-la abraçar algo em mim se frustra por não tê-la e me vejo mais livre duma satisfação. Os meus dias são assim, as minhas noites são assim, tudo de pouco em pouco me faz te ver. Meus receios ainda infantis fazem de mim quase que um tolo, parado por não poder arriscar sem reservas, e distante de minhas seguranças. Antigamente, faria um acordo com os meus prazeres, só para apreciar por um mísero instante, o que é ter o poder da satisfação egoísta. Porém hoje, porque cada vez mais te quero, tudo tem perdido um pouco sua grandeza e encontrado sempre mais o seu lugar. Mas não é tão simples, sei as dores que me custas, sei os tomentos que passo, as noites que atravesso, os suspiros ofegantes que saem de dentro de mim. Convencido estou que terei que morrer aos poucos para aos poucos te achar, como que escondida por baixo da minha própria pele, ou envolvida em lençóis de seda.

As vezes penso sequer em escrever-te, mas lanço para longe tal desejo, e não entendo porque tão fácil é desfazer-se de tudo, e difícil tão é permanecer a tenda armada durante a força do vento. Como é covarde abrir mão de tudo por medo do sofrimento, até promessas se tornam vulgares quando tudo ao redor é mais instável diferente do tempo do prometido. Sim, é simples ir embora, fugir, deixar, desistir. Agir assim é esquecer-se da grandeza que tu tens, e ir na direção contrária a tudo que foi encontrado contigo, nos teus braços, é prova certa de que se perdeu no caminho para te achar, pois só é teu aquele que é capaz de reafirmar a opção que fez por ti.

Respiro fundo, olho pela janela, a água cai no chão fazendo seus barulhos enquanto uma criança me pede ouvidos, cada vez mais me reconheço necessitado de ti, porque esmiúças em mim aquilo que não tenho coragem de reparar. É tão real essa compreensão que agora sei o que me faz não querer te buscar ainda, é o que me insinua buscar outro caminho que não aquele que me concederá viver perfeitamente contigo. São grilhões escondidos, disfarçados de doçura, a recompensa que se poderia receber quem repensasse a sua escolha. O bem agora não é tão forte na sua imagem, ele se revelou uma escolha nivelada ao mal que lhe é absurdamente oposto, porém tal pensamento só ganha estatura onde há tal competição. Só se pensa deixar o bem conhecido quando tal bem nunca teve de fato seu lugar, pois que não poderia competir com aquilo que já lhe é inferior por condição. É isso que me tenta arruinar, fazer perder aquela que tanto amo, uma loucura que me faz pensar agir bem quando posso perder tudo o que construí com minha senhora. Mas jogo para longe de mim o querer optar por deixá-la, o que quero é somente seu amor puro que traz consigo o bem e a bondade. Não quero deixá-la, nem ela, nem as coisas que ela me traz.

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