quarta-feira, 16 de novembro de 2011

XXX {palácios} [íntegra]

Minha amada, na cama sempre penso o que seriam os dias sem jamais ter te encontrado, ou como seriam, se em mim não houvesse esperança alguma de abraçar-te sem fim. Penso também no que acontece fora da minha morada, onde tocam os meus olhos, onde ouço canções, onde toco a matéria, onde exalo perfume, onde sinto o gosto das coisas. Penso sobre o que pensam, sobre como se comportam os que de alguma maneira encontram no fulgaz um refúgio. Me sinto estranho, as vezes estrangeiro, diante de tantas formas de ser que nada são, diante de tantas maneiras de agir que não agem bem, diante de tantas palavras que nada conseguem dizer a não ser coisas vãs, me sinto estranho por pensar de maneira diversa, por não comungar com certas ilusões mentirosas, e minha estranheza não advém por negá-las, mas por ser excluído tido por uma espécie de doença. Será eu o doente? Preciso ser um homem sem rosto? E pensar que acham-se mais cheios de estilo os que de forma indiscreta aparecem entre as pessoas, aqueles que vestem roupas ridículas imaginando estar aí sua mais alta expressão de fidelidade ao próprio caráter. Nós nos acrescentamos enquanto precisamos tirar, nós nos vestimos de roupas velhas e o que precisamos é nos despir da falsidade. Nos apresentamos como grandes enquanto a nossa alma reclama ser pequena, não por sonhar pequeno, mas por ser simples. Fazemos de nós meros enigmas, códigos criptografados simplesmente alfanuméricos. Deixamos o mistério e caímos no determinado. E nos achamos sábios, homens inteligentes, só porque entendemos ou decodificamos a matéria. Ó, minha dama, quem é este que te fala? Barro, argila, pó! Sou como os outros, amo para ser amado, procuro para ser procurado e nada faço senão for para buscar a mim. Mas todos são assim? Todos quando dão querem receber?

Minha dama, já me dei tanto, já sonhei tanto, imaginei casas de ouro, onde habitariam eu e aquela estrela, galguei palácios construídos com pedras de amor, feitos de telhados de paz, e chão de felicidade. Como um poeta que faz da caneta uma rosa, escrevi ramalhetes na cor vermelho vibrante. Tudo isso o fiz e sempre foi vão. Errei em me precipitar nos braços de uma outra esperando ser ela a verdadeira brilhante, quase lhe causo dor e amargura. Minha dama, sonho ainda, espero ainda, e tento, exprimindo em setas, lançar num olhar esse sonho e fazê-lo chegar ao céu.

Nenhum comentário:

Postar um comentário