domingo, 27 de novembro de 2011

XXXIV {pequenas gotas} [íntegra]

Algumas discussões me incomodam. Sempre tento ser persuasivo o bastante e ter o melhor argumento. Acontece que coisas infantis não precisam de palavras, por si perdem qualquer disputa. Mas quem vê a infantilidade quando ela aparece como brincadeira? Quem vê em ato engraçado a figura de um menino? Li isto de um sábio homem: "Quando eu era criança, pensava como criança, agia como criança, agora que sou adulto faço coisas de adulto.". A ignorância, tida em conta de minimizar o erro é sempre válida. O que não sabe estar errado não erra. Ou pelo menos erra sem os mesmos agravantes do conhecedor do erro. Se me vissem criancinha fazer algo digno de censura, sem demoras me levariam à disciplina, sem considerar a ingenuidade infantil, por não saber a grandeza do erro eu seria exortado a não cometer outra vez este ato. Ora, quando adulto, agora com minha consciência cheia de saber não me imputam erro quando faço as mesmas coisas que era criança. O que faz tal comportamento ser censurado quando em tenra idade se tornar aceitável quando o homem crescido? A consciência? A máscara da brincadeira? Se uma criança quando brinca comete um engano tal equívoco deve ser desconsiderado em sua educação? Se dissermos que não, motivados pela necessidade que tem tal criança de crescer sadiamente acabamos lançando culpa sobre os nossos atos adultos. Pois se quando pequeno, imaturo, sem discernimento suficiente, ainda ignorante posso ser censurado e ter em conta tais fatores a meu favor. Quando adulto, por ser grande, maduro, digno de discernimento, não mais ignorante sou réu dessas virtudes.

Esse tema é inesgotável, como tantos outros que me questionam o íntimo. Aqueles que trago sempre comigo, que vez ou outra me incomodam. Amores, paixões, sentimentos, sensações, pensamentos... São infindas essas outras. Agora é tudo tão diferente de tempos anteriores, minhas paixões mudaram, não a intensidade, mas a forma. Crescer eleva-me, me tira daquela condição rastejante em que outrora me eram mais pesados os vícios que as virtudes. Vejo virtudes onde antes imperavam paixões, vejo amores onde outras paixões me encantavam. Estou mudando. Não falo de grandes coisas, aquelas pedrinhas que me deixavam inquieto como se fossem enormes montanhas agora reconhecem seu tamanho. Aprendi a olhar diferente para mim mesmo, sem dar valor demasiado ao mutável.

Minha amada, o que queres? Diz-me. Está tão tarde, me sinto bem, vejo o teu belo rosto. Queria dizer-te que amo-te de forma intensa, incessante. Como se lançam as águas duma cascata abundante, com tanto fragor, como torrentes, assim meu amor se joga em teus braços. Vem, amada minha, façamos hoje ainda canções e poesias para exaltar nosso amor. Tão precioso tal instante que se pudesse o eternizaria nalgum retrato. Mas quem pode ver-nos, sem que nos ignore? Quem poderá compreender-nos sem que nos questione? Deixemos entre nós. Fiquemos a sós e amemo-nos. O brilho dos astros nos toca, nos percebe, que se encante com nossas núpcias. Aquela pequena estrela que constantemente crepita vê-nos, mande-mo-lhe beijos, acenemos nossa alegria. Olha, estrela, tu que és bela, tu nos tens se o quiserdes ou poderás voltar atrás e rejeitar-nos.

Esses dias são outros, essa noite é outra, esse sonho não é igual. Minha morada exulta sem nada receber, só porque pensa amando, se dá amando, exulta. Nem o cansaço dos meus olhos me fazem querer deixar em branco esse instante. Minha rainha, minha querida senhora, está tão unida a mim que sinto nos meus dedos o fulgor da sua alma. Já estava a sentir falta de tamanha delícia, um gosto tão aprazível que ninguém o suporta na totalidade, como que em pequenas gotas prova dele, esta gotícula que experimento é demais grandiosa para tão ínfima matéria. Que alma suportaria, sem morrer, conhecer-te totalmente amada minha. Agradeço-te esta hora avançada, este sono que me bate, repousarei contigo, desposar-te-ei esta noite toda e provarei no meu sono os teus beijos.

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